Conduzido pelo projeto Rebimar em Pontal do Paraná, o estudo científico detectou as partículas sintéticas no trato digestivo dos animais. Os fragmentos menores que 5 milímetros também foram encontrados em alta escala em aves locais.
Por Bruno de Freitas Moura/Agência Brasil – Publicado em 27 de maio de 2026 às 08:30
Foto: Fernando Frazão
A poluição por resíduos sintéticos atingiu níveis alarmantes na fauna marinha do Sul do país. Um estudo inédito coordenado pela oceanógrafa Fernanda Possatto revelou que 93,6% dos peixes coletados em feiras e mercados do litoral do Paraná contêm microplásticos em seus tratos digestivos. Das 47 amostras analisadas por pesquisadores, 44 apresentavam partículas plásticas menores que 5 milímetros.
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A contaminação mostrou-se ainda mais severa nas espécies de peixes demersais, que são aqueles que vivem e se alimentam em contato direto com o fundo do mar. Apesar do dado preocupante, a pesquisadora fez questão de tranquilizar a população quanto ao consumo imediato dos alimentos.

“A gente não está falando ainda de risco para a saúde humana porque hoje a gente não come o trato, não come o estômago, a gente come o músculo. Isso não significa que os peixes não podem ser ingeridos, porque a gente não está debatendo a saúde alimentar ainda, mas já é um indício claro de que precisamos estudar melhor esses impactos”, explicou Fernanda na sede da Associação Mar Brasil, em Pontal do Paraná.
Contaminação atinge aves e ignora fronteiras geográficas
Os resultados do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) — iniciativa patrocinada pela Petrobras — também identificaram a presença massiva de poluição plástica na avifauna local. Através da análise de material regurgitado por espécimes vivos de gaivotas e corujas-buraqueiras, constatou-se que 69% das aves da região possuem fragmentos plásticos no organismo.

O estudo enfatiza que as partículas foram detectadas com a mesma intensidade tanto em áreas de forte impacto industrial e humano, como no entorno do Porto de Paranaguá, quanto em santuários ecológicos isolados. Para os cientistas, o cenário evidencia que as marés, correntes marinhas e os ventos transformaram o microplástico em um problema sistêmico e global, incapaz de ser contido por fronteiras geográficas ou demarcações de reservas ambientais.

O impacto do lixo rígido na mortalidade de tartarugas
Paralelamente ao estudo dos microplásticos, pesquisadores do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) monitoram a saúde das tartarugas-verdes na região. O diagnóstico pós-morte expõe uma realidade severa.
O levantamento das necropsias aponta que:
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80% das tartarugas encontradas mortas nas praias do Paraná tinham lixo em seu aparelho digestivo;
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O maior perigo reside nos plásticos rígidos, responsáveis por causar perfurações e lesões graves nos órgãos dos animais;
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Cerca de mil tartarugas são encontradas mortas anualmente na faixa litorânea monitorada pelo projeto.

De acordo com a bióloga Camila Domit, coordenadora do laboratório da UFPR, o consumo de lixo gera um efeito dominó na sobrevivência desses répteis. Ao ingerir os resíduos, os animais ficam debilitados, perdem a capacidade de defecar e passam a flutuar na superfície por excesso de gases, tornando-se alvos fáceis para o choque com embarcações ou para o aprisionamento acidental em redes de pesca.

Os dados científicos gerados pelo Rebimar têm servido de subsídio técnico para a criação de políticas públicas de preservação, ajudando diretamente no processo de transformação da Ilha das Cobras em um parque estadual de conservação.

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