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Febre do álbum da Copa: como a troca de figurinhas ajuda a combater o isolamento de crianças e jovens

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Especialistas apontam que a busca por figurinhas estimula a paciência, a capacidade de lidar com frustrações e a habilidade de negociação presencial em uma geração marcada pelo imediatismo e pelo excesso de telas.

Por O Globo – Publicado em: 31 de maio de 2026 às 08h27 – Foto: Edilson Dantas

Eles estão espalhados por toda parte: nas escolas, nos shoppings, dentro dos condomínios e em diversos espaços públicos. A febre do álbum de figurinhas da Copa do Mundo tem arrastado crianças, adolescentes e até adultos para as ruas, trazendo um benefício colateral pouco esperado para a saúde mental dos jovens: o retorno definitivo da socialização presencial.

O Globo – Foto: Edilson Dantas

​Em um cenário dominado por aplicativos de mensagens e redes sociais, as novas gerações perderam parte considerável do convívio do dia a dia. O fenômeno do colecionismo, ainda que cercado por críticas ligadas ao consumismo e aos custos dos pacotinhos, promoveu uma reaproximação real. Durante os encontros de troca, os jovens aprendem a esperar pela figura desejada, a lidar com a frustração da rejeição e a praticar a arte da negociação.

Desenvolvimento emocional fora do ambiente virtual

​Em uma geração imediatista, na qual tudo está disponível na palma da mão através de um clique, a criação de expectativa ao abrir um pacote e o mistério de não saber o que vem dentro são fundamentais para o amadurecimento emocional, avalia a psicanalista Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Segundo ela, esses encontros fogem do virtual, geram conversas reais, estimulam o senso de comunidade e fortalecem laços afetivos.

​A psicóloga Carolina Nassau Ribeiro complementa que é a partir da convivência coletiva que o indivíduo regula suas emoções e aprende a resolver conflitos.

Ela cita o exemplo de uma criança que tenta traçar estratégias para trocar várias figurinhas comuns por uma considerada rara.

Nessa dinâmica, o jovem enfrenta o obstáculo, cria um plano prático e não desiste ou simplesmente bloqueia o colega, como costuma ocorrer nas redes sociais, gerando um aprendizado essencial para a vida adulta.

​O impacto do isolamento e o papel dos pais

​Com o período da pandemia, as experiências coletivas foram reduzidas e o isolamento virou uma rotina confortável dentro de casa, cobrando um preço alto na saúde mental das crianças, com o aumento de casos de ansiedade e depressão. A psicóloga Priscila Martins aponta que a falta de traquejo social pode se tornar viciante para os jovens porque os poupa de desgastes e discussões cotidianas.

​Para reverter esse quadro de dependência digital, os especialistas defendem que os pais devem atuar ativamente na promoção de interações presenciais. Organizar mesas de troca no condomínio, estipular metas financeiras com os filhos e deixá-los resolver os próprios impasses durante as trocas são atitudes recomendadas.

O pediatra Daniel Becker ressalta que o manuseio físico das páginas traz a infância de volta à realidade, funcionando como um excelente ponto de partida para retomar outras brincadeiras clássicas ao ar livre, como futebol, pega-pega e passeios em parques.

O Globo – Foto: Edilson Dantas

Inclusão de gênero e aprendizado financeiro

​Outra mudança marcante trazida pelas últimas edições do torneio é a quebra de barreiras de gênero. Historicamente visto como um território predominantemente masculino nas décadas passadas, o ambiente de trocas e brincadeiras como o tradicional jogo do bafo hoje conta com a participação ativa e massiva de meninas de todas as idades, servindo como ponte de comunicação entre os gêneros na adolescência.

​Além do ganho social, a atividade serve como uma lição prática de economia doméstica. O planejamento financeiro foi vivenciado na prática pela empresária Danielly Garcia, mãe de três filhos. Os dois mais velhos utilizaram o salário de jovem aprendiz para comprar os cromos, calculando gastos e investimentos.

O reflexo atingiu até o filho caçula de cinco anos, que passou a ensaiar suas primeiras negociações de forma natural na Vila Belmiro, provando que as dinâmicas sociais criadas em torno do papel geram memórias e habilidades que permanecem muito além do término do campeonato mundial.

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